Entrevistas

Paulo Ouricuri (Página 2)

A triste história do índio JucaComo você e a literatura se conheceram? Como, onde e por que tudo começou?

Começamos como leitores, até porque não há o escritor se não há a leitura prévia de muitos livros antes. Comecei lendo na escola os livros clássicos, de autores como Monteiro Lobato, Machado de Assis, Eça de Queiroz, a Bíblia (estudei no Colégio de São Bento, um colégio católico), Homero, a poesia de Camões, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira. Depois da escola, prossegui lendo vários outros livros de literatura, poesia, direito e filosofia. Adquiri novas paixões como Boécio, Kafka, Ortega y Gasset, Padre Antônio Vieira, Ruy Barbosa, Euclides da Cunha, Nelson Rodrigues, Fiódor Dostoiévski, etc. Depois de ter lido estes autores e muitos outros, passei a arriscar escrever alguns poemas no papel, mais ou menos em 2006, 2007. Tive alguns poemas avulsos publicados. A triste história do índio Juca é o meu primeiro livro.

 

Como você vê o mercado editorial para os novos escritores brasileiros? Em sua opinião, é possível viver de literatura no Brasil?

Para quem está começando, é sempre mais difícil. Não há receita de bolo para se estabelecer no mercado, mas certamente há caminhos que levam um novo escritor a se consolidar editorialmente (as gerações se sucedem, os autores se renovam). Só que estes caminhos têm que ser descobertos caso a caso. Sim, é possível viver de literatura no Brasil. Alguns vivem. Mas devemos lembrar que escritores e poetas importantes tiveram outras profissões. Apenas para mencionar alguns exemplos de autores consagrados, Guimarães Rosa, Vinicius de Moraes e João Cabral de Melo Neto foram diplomatas. É possível e aconselhável buscar a carreira de escritor juntamente com outra.

 

De que maneira a internet atua na sua vida de escritor?

Há muitos textos de qualidade na internet. Tanto de escritores e poetas novos, que disponibilizam seus trabalhos na internet, quanto de outros mais consagrados. Sermões de Padre Antônio Vieira podem ser lidos na internet. Livros completos de Eça de Queiroz, Machado de Assis, dentre outros que caíram em domínio público, também. Nélson Jahr Garcia (1947-2002) fez traduções excelentes de William Shakespeare, e disponibilizou de graça na internet. Ele disse: “Todas as obras são de acesso gratuito. Estudei sempre por conta do Estado, ou melhor, da Sociedade que paga impostos; tenho a obrigação de retribuir ao menos uma gota do que ela me proporcionou.” Em suma, há inúmeras obras de qualidade na internet.

 

Já há quem diga que a literatura, assim como a música, está se desligando cada vez mais de formatos predeterminados, como o CD, o Vinil e o próprio MP3, para se tornar mais “livre”. Em contrapartida, isso impediria a remuneração adequada do autor, que já é baixa, e a tornaria inexistente. Qual sua opinião sobre esta questão?

É uma questão que terá de ser bem equacionada. A internet está impactando em diversos mercados, como nos jornais, revistas, televisões, rádios, música, dentre outros. Na literatura não é diferente. Dá pena ver as livrarias fechando as portas, tornando-se menores, como está ocorrendo agora. Gosto de entrar numa livraria, folhear livros. Mas não creio que a remuneração do autor passe a ser inexistente. Deve haver um impacto no mercado editorial, mas as editoras podem publicar livros no formato digital, garantindo aos autores um percentual nas vendas (como já vêm ocorrendo). Mas temos que tomar cuidado com a pirataria virtual.

 

Existem especulações de que uma das maneiras de agregar valor e aumentar a rentabilidade dos livros seria a inserção de publicidade nas edições, ou de histórias pagas por anunciantes, em que o personagem, por exemplo, utilizaria um produto de determinada marca, citando-o no decorrer da história. O que você pensa sobre isso? Acredita que a publicidade pode se tornar aliada da literatura?

Dentro do contexto literário? Vejo com reservas esta ideia. Isto acontece em novelas televisivas, filmes. Mas em literatura pode ser prejudicial à reputação da obra e do autor, visto que o bom escritor, além de dominar a sua arte, deve ser sincero e buscar atingir sentimentos mais sublimes no leitor. O marketing, dentro da obra, quebra a magia da literatura.

 

Quais os seus planos para o futuro?

Vou lançar agora, em 19 de julho de 2013, meu segundo livro, 50 sonetos reunidos, pela Editora Multifoco, na Lapa, Rio de Janeiro. Há um terceiro livro de poesia que já finalizei, com poemas diversos. Só que irei revê-lo ainda. Fora isto, publicarei um artigo de direito na edição 126 da Revista Dialética de Direito Processual, que deve sair em setembro de 2013. E pretendo também escrever um livro de direito nos próximos três ou quatro anos.

 

PAULO OURICURI INDICA

Os irmãos Karamázov Os Irmãos Karamazov
(Fiódor Dostoiévski, Editora 34)
Novela densa e envolvente, com múltiplos enredos e temas. Aborda questões humanas essenciais como a religiosidade, a relação entre pais e filhos, o amor, a política. Retrata personagens das mais diversas características e classes sociais com riqueza ímpar. A parte do julgamento do irmão mais velho, Dimitri, no qual se contrapõem argumentações do promotor com as do advogado de defesa é memorável, bem como outros trechos do livro, como quando o segundo irmão legítimo Ivan relata o poema que fez sobre a reencarnação de Jesus Cristo.
A consolação da filosofia A consolação da Filosofia
(Boécio, Martins Fontes)
Belíssimo livro, escrito em circunstâncias adversas (o autor estava preso e condenado à morte), no qual o autor mostra, de forma eloquente, que o mundo pode lhe subjugar fisicamente, mas ainda lhe restará espaço para a felicidade e para a liberdade verdadeira.
A correspondência de Fradique Mendes A correspondência de Fradique Mendes
(Eça de Queiroz, L&PM)
Uma obra-prima na qual Eça de Queiroz realça todo o seu gênio irônico e sua refinada escrita, traçando um breve quadro sobre Portugal do final do século XIX.

 

Alessandra Carvalho é jornalista, redatora na agência Teia de Marketing Literário Virtual e escrevinhadora eventual.
E-mail para contato: comunique.a.ale@gmail.com.

 

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