Livros

Mar quente

Em quatorze histórias, diferentes persoangens precisam resolver conflitos internos e externos

– 01/04/2010

MAR QUENTE
Enio Roberto
96 páginas
Dublinense, 2009
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Parafraseando o texto da orelha escrito por João Kowacs Castro, diria que a leitura de Mar quente é um mergulho em águas profundas e misteriosas. Cada final de conto reserva uma surpresa ou revelação. Seja ela irônica, dramática, trágica ou desconcertante. A verdade é que ninguém consegue ficar indiferente às quatorze narrativas que compõem a obra.

Reunindo diferentes vozes e situações, o autor cria um interessante painel em que os personagens precisam resolver seus conflitos, sejam eles internos ou externos. Temas como preconceito, relação entre pais e filhos, drogas, tempo, literatura, relacionamentos e desencontros figuram nas páginas de Enio Roberto.

Em “Geleira”, uma famosa cantora atrai para si a hostilidade da própria família e de sua cidade natal. Com um final impactante, o conto mostra o lado mais sombrio e cruel do preconceito. Outra narrativa que explora o tema, só que de forma mais branda, é o texto “Num jardim artificial”. O protagonista desiste de se relacionar com uma bela mulher, mesmo admirando as qualidades dela, por um preconceito tolo e mesquinho.

Utilizando elementos da doutrina espírita no conto “O sinal da luz”, o autor aborda de maneira tocante a relação entre pais e filhos e o problema das drogas. Acompanhado pelo pai, um dependente químico em recuperação visita o túmulo da mãe. Durante a visita, o pai relembra os momentos difíceis que a família enfrentou por causa do vício do filho. Em “TSC” (Tribunal Superior da Consciência), o absurdo e o fantástico se unem para tratar o mesmo tema do conto anterior, mas as drogas ficam de fora. Uma vendedora de cachorros-quentes é julgada num ginásio esportivo por não dar a merecida atenção à filha. O juiz e o advogado de acusação são a mesma pessoa, um louco vestido de paletó xadrez.

Nos contos “Montanha 561” e “Nego Tuco”, os protagonistas vivem situações de extremo perigo. No primeiro conto, devido a uma mina terrestre, um soldado é obrigado a ficar imóvel, correndo o risco de ser alvejado pelos inimigos. No outro texto, um marginal está prestes a ser morto por um perigoso traficante conhecido como Nego Tuco. A causa foi um envolvimento sexual do protagonista com a irmã do criminoso. Ambas as narrativas têm um desfecho totalmente inesperado, com uma boa dose de ironia.

“Maldita epígrafe” é uma homenagem aos escritores Edgar Allan Poe e Lygia Fagundes Telles. Inspirado nos contos de horror “O barril de amontillado” (Poe) e “Venha ver o pôr-do-sol” (Lygia), o autor cria a história de um professor que precisa se livrar de uma visita inesperada e inconveniente.

Duas histórias que ocorrem na praia são sobrepostas em “Díptico”. Nelas, em meio a lembranças, os narradores falam sobre a passagem do tempo e a finitude da vida humana diante dela. Recordações de momentos felizes e saudades de familiares queridos.

A fragilidade das relações humanas aparece em “Crocodilo e Lagartixa”. Com o passar dos anos e diferentes caminhos na vida tomados, um imenso abismo se coloca entre dois amigos de infância. A cena que mostra o fim da amizade é comovente e triste. Em “Você lembra quando o prado floria?”, o sentimento de amizade se transforma numa louca obsessão. Movida por um ciúme doentio, a narradora toma uma atitude drástica contra a amiga. Com certeza, os leitores ficaram chocados com o ato da protagonista.

Os relacionamentos amorosos são abordados em quatro contos. A ironia está presente em “Ternura”: uma moça tratada com grosseira pelo namorado age de forma contrária ao esperado quando o rapaz a trata com respeito. No conto “Suturas de amor”, um médico desesperado usa suas habilidades para impedir o fim do casamento. Em “Bodas de chocolate”, uma mulher doente mostra através de uma torta de chocolate que ela sabe sobre o caso extraconjugal do marido. E por fim, um arquiteto está diante de um dilema, tentar salvar um casamento em crise ou começar uma nova vida com outro amor. Esse é o enredo de “Em algum lugar do meu passado”.

Com linguagem coloquial e precisa, Enio Roberto cria um conjunto harmonioso de diferentes vozes e histórias. Cada narrativa é trabalhada com suor e talento. As palavras envolvem e seduzem o leitor. Não há espaço para a indiferença e o tédio.

Comentários (12)
  1. Barbara Feldmann

    06 de abril de 2010 - 18:43

    Parabéns ao resenhista Luiz Fernando Cardoso. Se eu já tinha uma vontade danada de ler o Mar Quente, depois dos comentários acima só me falta encomendá-lo imediatamente.

  2. Marco De Curtis

    08 de abril de 2010 - 16:37

    Repletos de ironia, peripécias e sutilezas os contos de Enio Roberto são, literariamente, maduros, criativos; fazem nos refletir no que Umberto Eco diz a respeito da excelência ficcional. O crítico italiano afirma que o bom texto literário é uma máquina de pensar; não no sentido matemático, mas no sentido da construção, da elaboração lapidar, no sentido de ser algo intelectualmente engenhoso, minuciosamente pensado. A literatura de Enio exige do leitor que ele pense, que ele preencha suas lacunas. Mar quente demonstra que ele é o tipo de escritor que respeita o público leitor, mas que também o afronta; contudo o faz no bom sentido, não com o intuito de chocá-lo fortuitamente, mas o de instiga-lo, de faze-lo seguir suas histórias para recompensa-lo com desfechos as vezes surpreendentes, as vezes desconcertantes. As histórias de Mar quente são humanas, demasiadamente humanas, como toda boa literatura deve ser.

  3. Angela Reale

    08 de abril de 2010 - 19:24

    Excelente resenha. Li Mar Quente e me senti navegando em mares nunca antes desvendados.
    Parabéns enio Roberto. Escreva mais. Muito mais. Terei paciência para esperar.

  4. Gustavo

    13 de abril de 2010 - 14:30

    No meio acadêmico em que convivo, praticamente fui compelido a ler esse livro. Há várias discussôes não em torno do Mar quente, mas, é verdade, quanto a alguns títulos lá contidos. Eu acho massacrativo ter de ler contos, os livros desse gênero em geral são chatos, não se consegue passar de uma história para outra, tamanho o enfadonho que se pega de cara. Comecei a ler o Mar quente a partir da última história até chegar ao conto que abre o livro: Geleira. Tinham razão alguns colegas e o professor da disciplina, o livro é bom, depois, no meio, ficou melhor ainda, entusiasmou pra caramba em O Sinal da Luz, esse conto ótimo. Eu estava, como disse, entusiasmado, para ler Geleira, quando, de repente o autor me jogou um balde de água fria ao detonar, ao falar mal da minha cidade, da própria cidade onde ele nasceu e vive, mesmo que não tenha citado o nome de Porto Alegre. Que pena, Enio Roberto, fiquei, assim como outras pessoas, com a cereja na mão para colocar em cima do teu bolo, mas tive de jogá-la fora. Porto Alegre não merece.

  5. tadeu

    15 de abril de 2010 - 15:24

    Ler por obrigação é isso que dá, caro Gustavo. Posso dar uma sugestão? Saia, imediatamente, desse “meio acadêmico” que convives. Não por ti, mas pelos demais que o frequentam. Teus preconceitos e provincianismo são estarrecedores.
    Nossa querida Porto Alegre não te merece…

  6. Regi Feldmann

    16 de abril de 2010 - 17:30

    Calma, crianças, não briguem. Primeiro, que em ficção tudo é válido, e, mesmo assim, se não fosse, perdoe-me o Gustavo, preconceito existe em todos os lugares e, manifestamente, em nossa PoA. Vocês dois, brigões, notaram que a personagem,notadamente vítima de preconceito por parte das pessoas da cidade, age também dessa forma? Pois o que acham de “tudo tão Paris e falso que resolvi nem descer”? Delicadeza do autor: vejamos nós, os que se rebelam contra os preconceituosos, se não agimos também com uma outra forma de preconceito ( e nem mesmo sabemos).

  7. diego

    12 de maio de 2010 - 18:19

    Sei que não presta, mas gostei. Diverte, dependendo faz chorar. Diverte muito, até. Por que não presta? Uai, se não tem unidade não é bom, é o que ensinam no curso de letras: unidade.

  8. Rose silveira

    12 de maio de 2010 - 23:11

    Olá pessoal eu ainda não tivi a onra de ler MAR QUENTE, mas como eu já li um outro livro do autor já estou curiosa pra ler este também,valew Enio Roberto um abraço……….e continue escrevendo….

  9. Enio Roberto

    13 de maio de 2010 - 14:28

    Rose, eu nem lembrava que os organizadores do Palcohabitasul 2000 haviam feito uma antologia com os contos vencedores do concurso. Valeu teu comentário para abrandar minha saudade.

    Aproveitando a intromissão, agradeço ao Literatsi por disponibilizar esta coluna, e aos amigos e colegas pelos comentários entusiasmados.

  10. Jéssica Camargo

    04 de dezembro de 2010 - 10:31

    Essse livro é muito bom! Vale a pena ler. O melhor conto é o último do livro, Você lembra quando o prado floria?

  11. fabiula

    01 de fevereiro de 2011 - 10:35

    nada de mais
    parabéns por esisti esse site!********************

  12. Paola

    15 de julho de 2011 - 13:33

    Recomendo.

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