Poemas

Mulhermarço

– 29/06/2015
Mulher séria

Imagem: Vectorportal.com.

 

Guarde seus aplausos, o presente e o sorriso falso

Só porque é março?

Descanse a maquiagem, os abraços, e as piadinhas quando passo

Não esquecerei o tapa, nem o roxo na cara,

Nem a falta de consideração

Quando todos os dias me maltrata

Não nasci mulher, mas tornei-me mulher

Eu não sou apenas um corpo

Nem objeto do seu desejo escroto

Nem rainha do lar

Nem das roupas pra lavar e passar

Nem dona do fogão

Nem troféu pra homem desfilar

Sou mulher, não sou anjo, muito menos intocável

Só não tente querer andar pelos meus calos

Sua boca logo calo e nem tente me silenciar

Não me venha com esse falso amor, nem seu papo fiado

Tem dias que sou princesa sem salto

Em outros, madame andando descalço

Tenho liberdade pra me reinventar

Na vida, na cama, no trabalho

E em qualquer lugar

Contrariando a sociedade

Hoje escolho minhas profissões

Inverto a história de tantas mães e não mães

Mulheres, guerreiras

E quem disse que somos indefesas?

Desconhece as forças que guarda uma alma feminina?

Azar de quem subestima

Quisera tu ter a força dessas meninas

Mulher-menina

Mulher tem sobrenome, coragem

Estilhaça medos da humanidade

Desbrava o mundo gritando sua liberdade

Quem disse que não posso?

Que não tenho querer?

Volte às histórias, aos livros, às revistas, acompanhe-me em vida

Verás o poder

Não é a maquiagem que nos faz

Não é o salto que nos faz ir além

Não é o cabelo que nos dita

Não é o corpo que nos embeleza

Não é comida que saboreia a vida

É a nossa existência

A voz que vos grita.

 

Jacqueline Nogueira Cerqueira, reside em Sapeaçu (BA) desde que nasceu. É poetisa e cronista, assina com o pseudônimo Jacquinha Nogueira. Com graduação em Letras Vernáculas (UNEB, 2013), é professora, pesquisadora literária e organizadora do Sarau Sapeaçu. Desenvolve nas escolas onde leciona o projeto A Poesia Vive. Tem poesias publicadas nas antologias O diferencial da favela: poesias quebradas de quebrada (2014) e Poesia Livre 2014.

 

Texto publicado na edição 2 da revista Eels.

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