Poemas

Favelário amazônico neural

– 09/08/2014
Imagem do livro The naturalist on the River Amazons, de Henry Walter Bates

Imagem do livro The naturalist on the River Amazons, de Henry Walter Bates.

1
mastigar pétalas de jambo, injetar sementes de jabuticaba,
embebedar-se de flores de abóbora, fumar o amarelo do maracujá
e depois usar como travesseiro a Lua
e tendo seus sonhos com a mesma medida de uma rua.
ver que esses vergalhões de aço,
essas chapas de metal, essas vigas
nunca se queixam de carregar estas toneladas de corpos felizes e tristes.
se sentimento possuísse rosto,
o mundo esmurrá-lo-ia,
e cada dia da semana seria um hematoma deixado pelo
exosqueleto de cimento, punho político e soco urbanizado.
a cidade também tem seu lado machado
de algodão e de aço
na veia jugular.
os jornais quando
folheiam o sono de um mendigo, fica perplexo e encantado.
como exaustores
as marquises espionam os pedestres,
e também se sentem perplexos quando chupam tudo aquilo
que vaza,como diesel queimado da envergadura de cada testa.
soletrar o adjetivo tranquilo no ouvido do século é impossível
Ele rosna
Ele morde.
sobreviver com a amamentação a base de poema
tem sido
massagens depois
de um soco na clavícula.
poemável é a capacidade de um material
voltar ao seu estado normal
de ereta coluna cervical
mesmo depois de ter sofrido uma tensão.

2
Estes postes, lixeiras, metros de asfalto, metros de piso,
metros de buracos, estruturas metálicas, fios, conduítes,
e as tubulações de água e energia elétrica,
toda a construção civil acolhendo o truculento canteiro de obras cotidiano que somos
estando cientes que foram construídos
para carregarem,
ou melhor
suportarem o peso de nossas vidas.
vácuos gordos de imensos descontentamentos,
endereços, esvaziamentos, horários, compromissos e sentimentos imensos.
espermatozoide de concreto e regras a espera de um feto,de um cidadão objeto.
até o serviço de coleta seletiva de lixo,
que coleta aço, vidro e plástico, passa a coletar nossas angustias. Imensas e biodesagradáveis.
ainda bebezinho
me colocaram para lamber a ferrugem na lâmina de aço oxidada,
era o ritual tribal da espécie de selvageria urbana.
por dentro
eu me fazia de roça do interior de Minas,
me vestia de roça, de feriado, de lençóis freáticos mesmo diante
do mapa da voraz cidade, esse casco de tartaruga que se sente lebre.
Sanguinolento.
pareciam ganidos de 50 rottweilers atropelados dentro de um neurônio.
saiba que essas avenidas e essas vias se estendem ate as nossas veias e vidas.

3
decomposto de nuvem de fuligem de carvão no céu da boca
e composto de estrelas e verbo.
quando o verbo se faz carne
o cotidiano é quem desossa a disposição carnosa
e deixa na pele e no osso.
a partir daí vem um abutre de terno preto
e faz de conta que te coça.
mas as vezes nem poemas fazem cócegas
mas estapeia, como o mundo.

4
& os dias atravessam, porco do pantanal, pelo nosso quintal
depredando cada aorta e as batatas de nossas pernas.
morde a maçã do rosto e escorre um caldo acre.
nas casas, membranas mucosas que envolvem as pessoas,
um vaso de flores ensaia uma calmaria, é a floresta amazônica de castigo dentro de casa,
é ali que cada um se despetala, se desmata, murcha & floresce,
pétala
por
pé-
ta-
la.
curso intensivo de fotossíntese
sem que o estresse seja o borrifo de agrotóxico.

5
pois o ferro dos carburadores já nascem adestrados
para se alimentarem de pulmões e de árvores.
já fraturaram a camada de ozônio do nosso teto
como a placa de sinalização na avenida brasil
toda perfurada de tiro e ódio.
podíamos ser um bebezinho Sofisticação na incubadora do século que


irá brincar de pular corda
com as suas próprias veias arteriais.
E se lambuzar de gás carbônico, aleitar-se de urânio e papá a fome
e a base de sódio e carboidrato engordar a ilusão.
comer a natureza humana
é para a tristeza praticante do veganismo milenar.
Buda e Krishna passam óleo diesel pelo corpo.
Shiva com medo de subir a favela tocando flauta de Pã e é ajudado por Curupira
cachimbando bytes e mascando semente de avelã.
e o bebezinho Sofisticação na incubadora do século


irá brincar de pular corda com suas as próprias veias arteriais.

6
toda essa tecnologia devia aliar pixel com terra batida.
tecnologia fosse se apalpasse as letras da palavra equilíbrio,
carne e espírito.
o verbo “persistir” continua sendo meu tórax!
mas aquele hábito de fazer as coisas do mesmo modo
todo bendito e encapetado dia é um infarte!
ciano deveria ser cor de gente nas primeiras horas da manhã
quando um idoso descer a favela encharcado de vérnix
caminhando pelo século 21 com sua bengala que é seu cordão umbilical.

7
a rua é o professor e a floresta a professora
estudo dentro da palavra vida, com a mesma teimosia
do rio quando percebe da existência do adjetivo seco e sujo
mesmo assim prossegue fluindo seu curso molhado.

8
a cada passo dado
percebo algo desanimador
tentando penetrar a rachadura do meu calcanhar
no entanto meu verbo caminhar é bruto como um zebu
e deixa atônita a pavimentação das calçadas,
assusta a argamassa
com a volatilidade da minha alma.

 

Matheus José Mineiro, artesão e autor do livro A cachoeira do Poema na Fazenda do Seu Astral, pelo Selo Tomate Seco. Produz artesanalmente os zines Apologia PoéticaCostelinha com Quiabo e Poesia e Mais um Cadim de Poesia Aí. Blog do autor:www.apologiapoetica.blogspot.com.

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