Crônicas

Meu nome é multidão

– 11/03/2015
Multidão em estádio

Foto: Abdulhamid AlFadhly.

 

Meu nome é multidão. Costumo espalhar-me pelos corredores das estações de trem ou metrô. Desloco-me com maior ou menor dificuldade, dependendo da minha concentração. Não penso, ou melhor, sou dotada de um pensamento coletivo.

Às vezes travo, isso geralmente acontece nas saídas das escadas ou esteiras rolantes. Nestas ocasiões, minha densidade aumenta a tal ponto que chego a ficar paralisada. Minhas partículas se desesperam, porque se veem sem saída, umas prendendo as outras. Por trás é a escada ou esteira rolante que não para de empurrar para frente, onde tudo vai amontoando… Aí então começam os meus movimentos descontrolados. Perco a compostura.

Meu equilíbrio é instável, e pode ser afetado por uma interferência mínima qualquer. Mínima para mim, com minhas gigantescas proporções, mas que pode ser uma situação dramática para algumas de minhas partículas. Por exemplo, um empurrão, um grito, ou até um tiro, tudo isso para mim são coisas pequenas, pois é uma questão de relatividade. Se você sente uma agulhada momentânea, localizada em algum ponto qualquer do corpo, sem consequência alguma, vai se preocupar com isso? Lógico que não! Pois é o que deveria acontecer comigo. Mas o problema é que minhas “células-pessoas” são muito sensíveis. Vão transmitindo e reagindo umas com as outras, reação em cadeia que vai se espalhando e amplificando…

Muitas vezes, meu pensamento coletivo é irracional, diria que até bestial, o que pode parecer incoerente, visto que cada um dos meus ínfimos elementos se julga tão inteligente. É quando a soma das partes dá algo bem menor que o todo. Isso acontece quando, por algum motivo, acredito estar passando por algum perigo. Verdadeira ou não, esta sensação em mim provoca grandes convulsões. Sou capaz de tudo. É por isso que dizem que sou imprevisível.

Os políticos, líderes e ditadores, todos eles me adoram. Conduzem-me por caminhos convenientes, quase nunca os melhores. Sabem muito bem da minha força, conhecem o poder transformador que tenho. Pena que sou muito manipulável, sugestionável, e não sei distinguir quem está querendo o meu bem de quem não está…

Mas tudo bem, vou tocando a vida, pelos corredores das estações de trem ou metrô, em frente aos palanques, palcos, inundando ruas… Onde quer que eu esteja, serei sempre a mesma. Irracional, instável, bestial, imprevisível, manipulável, ingênua… Esta sou eu. Meu nome é multidão.

 

Ademir Moreno Aguilar, 50 anos, é casado, tem dois filhos e é natural de São Caetano do Sul. Técnico em Eletrotécnica e bacharel em Matemática, atua como analista de sistemas. Premiado em diversos concursos literários.
Blog: http://contogotas.blogspot.com.br.

 

Texto publicado na edição 1 da revista Eels.

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