Ensaios

Drummond: a vida passada a limpo

Vida e obra de Carlos Drummond de Andrade, o poeta com muito mais de sete faces

– 18/03/2015

Carlos Drummond de Andrade

 

Ele fez de quase tudo na literatura brasileira. Versou, relatou, traduziu. Incomodou, emocionou, fez pensar. Foi sucesso de vendas, antes e depois da morte. Mas não é imortal na Academia Brasileira de Letras: seu duo timidez e humildade o impediram de se candidatar. Talvez Carlos Drummond de Andrade, nosso maior poeta e cronista de grande sensibilidade, seja um nome na lista de merecedores do prêmio Nobel de Literatura (e quaisquer outras honras literárias deste mundo) para muitos brasileiros, pela diversidade de técnicas e temas presentes em sua obra.

Uma relação muito forte do autor é com Itabira do Mato Dentro, sua cidade natal, lugar de extração de minério de ferro e produção de pessoas com alma de ferro, introspectivas, impermeáveis. No entanto, Drummond não vê sua terra do mesmo modo por toda vida. De início, a vê com desprezo, com olhos de jovem acostumado à literatura cosmopolita europeia. Quando mais maduro, passa a ver Itabira, seus moradores, sua sociedade, sua família, sua “vida besta”, com saudosismo e respeito. O “fazendeiro do ar” que havia rejeitado a herança campestre demonstra como aceita e sente falta das situações e costumes da infância, época em que sua “história era mais bonita que a de Robinson Crusoé”.

É preciso muito conhecimento para compreender seus escritos. Carlos, inteligentíssimo, cria intertextualidade, cita autores e pensadores aclamados mundialmente, faz aproximações e comparações. Isso porque o homem calado e pouco viajado foi um grande observador do mundo. Versou sobre temas diversos, da séria política ao descontraído futebol, da arte barroca mineira à contemporânea feita por seus amigos, dos dramas e romances de Greta Garbo e Griffith às comédias de Chaplin. Analisou com talento e maestria clássicos da literatura, obras de arte e estrelas de cinema.

Drummond não foi simples “voyeur”, também se relacionou com grandes artistas de seu tempo. Tendo conhecido os modernistas da primeira geração na década de 1920, passa a trocar correspondência com Mário de Andrade, que lhe mostra a importância da pátria em oposição à visível europeização do jovem. Mais tarde conhece poetas como Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, Jorge de Lima e Murilo Mendes; escritores como Guimarães Rosa e Clarice Lispector; pintores como Portinari e Di Cavalcanti. O tímido mineiro manteve relações com grandes nomes de sua época e dedicou vários pequenos poemas aos amigos.

Assim como outros escritores de sua geração, Carlos não é alheio aos acontecimentos do mundo. Fez de matéria da sua poesia “o tempo presente, os homens presentes, a vida presente” e voltou-se, pessimista, para os horrores das guerras e ditaduras. Tratou da Revolução de 1930, da Segunda Guerra Mundial, da Guerra Civil Espanhola, do comunismo e do Estado Novo. Sentia-se menor que o mundo, com seus ombros tendo de sustentá-lo. A poesia do então funcionário público encheu-se de medo, de sangue, de morte, visitou, como carta, a Stalingrado destruída, concluiu que viver era, então, uma ordem militar. De fato, eram tempos em que a única ação possível era perguntar “e agora, você?”. Mas havia também o último recurso, a esperança, oferecida como uma rosa, vermelha, ao povo.

Se o escritor foi tão atuante na primeira metade do século XX, a política da segunda metade não transpareceu tanto em sua obra. Não deixou de tratar da ditadura militar e dos Atos Institucionais, mas tal época influenciou de maneira menos incisiva seus escritos. Estava então voltando às origens e descobrindo no mundo rural e bucólico de Minas as relações e conflitos universais, à maneira de Guimarães Rosa. Dessa forma, o desfecho da história de Robinson Crusoé representava o fim de uma era europeizada na formação cultural do autor e a queda do cavalo era símbolo e motivo de vergonha.

Como todo bom poeta do imaginário popular, Drummond tratou dos sentimentos humanos, como o amor. Mas o fez novamente com sobriedade. Não vemos em seus poemas o bom e velho amor romântico, mas sim um amor desencantado e realista. Logo no início de sua carreira fez uma detalhada e precisa análise do amor através das Idades. Não sem antes nos apresentar uma quadrilha de amores não correspondidos, tragédias e um casamento por interesse. E já no fim da vida analisa o “amor natural”, carnal, que dá título ao seu penúltimo livro. Foram muitos os amores em Drummond, entretanto fica para nós o seu motivante conselho “um dia você beija, no outro você não beija.”.

Nosso escritor “voyeur” observou o cotidiano e dele retirou a matéria-prima para belas crônicas e tocantes poesias. Um homem acorda, ouve um barulho na cozinha, desce as escadas e dispara contra um inocente. Está configurada a morte do leiteiro. Por experiência pessoal, não lhe escapam a monotonia das repartições públicas, as peculiaridades dos grupos escolares, as injustas mortes prematuras do filho e dos irmãos. Vê-nos cada vez mais falsos, tornando-nos mais e mais consumistas. A sociedade virou marca, propaganda, etiqueta. Nada escapou aos olhos de Drummond.

Foi amigo de muitos artistas e admirador de tantos outros. Escreveu um astuto trecho de auto inspirado em Gil Vicente e suas personagens alegóricas. Dedicou versos aos românticos Joaquim Manoel de Macedo e José de Alencar, além do parnasiano Bilac. Versou sobre o bruxo do Cosme Velho, Machado de Assis, quis saber notícias da Espanha e chorou sobre o túmulo de García Lorca. Bebeu de todas as fontes literárias e não precisou usar heterônimos como fez Fernando Pessoa para ser vários.

O legado de Drummond começou a ecoar ainda em vida. Seu poema “O padre e a moça” virou filme na década de 1960. Outros tantos foram adaptados para o teatro. Villa-Lobos musicou poemas e criou melodias baseando-se nos versos drummondianos. Sua obra foi traduzida para várias línguas e publicada em diversos países. Diferente de outros homens ilustres como Van Gogh, Drummond teve seu talento reconhecido em vida e ganhou prêmios nacionais, internacionais e títulos honorários em grandes universidades no Brasil e no exterior. Virou até enredo de escola de samba. Depois de sua morte, seus livros continuaram sendo premiados, vários documentários foram feitos e seu primeiro poema virou música. Sua figura apareceu em cédulas de dinheiro e selo, sua voz está imortalizada em CDs de poesia e seu nome batiza bibliotecas.

Outra face menos conhecida, mas de suma beleza e importância dentro da literatura brasileira, é a de prosador. Drummond colaborou durante 64 anos com diferentes jornais e escreveu dezenas de crônicas. Novamente observando o mundo ao seu redor, apreendeu todo o humor e a poesia das situações cotidianas. Simples, direto e informal, o cronista retoma a coloquialidade, a graça e ironia de seus primeiros poemas. O que realmente é conhecido é que, por vezes, prosa e poesia em Drummond se fundem e se confundem.

Com certeza a maior influência na vida de Drummond, dentro e fora da literatura, foi sua filha Maria Julieta. Única herdeira do escritor, desde a infância foi digna de menções e homenagens nas poesias do pai. O talento mostrou ser genético, e Maria Julieta também publicou livros, chegando a realizar uma noite de autógrafos com o pai. Graças à filha e ao genro, sua obra começou a ser traduzida para o espanhol e logo ganhou o mundo. Suas únicas viagens internacionais, para a Argentina, foram motivadas pela filha. A ligação entre os dois era tão forte que se sucederam apenas 12 dias entre a morte de Maria Julieta e a de Carlos Drummond, triste e comovente fato.

Como outros poetas amigos de seu tempo, Drummond experimentou quase tudo na poesia. Utilizou os mais diferentes esquemas métricos e rímicos. Seguiu diversas tradições: medieval, clássica, moderna. Embora seja mais conhecido por sua fase inicial, sem qualquer rima ou métrica, ele não deixou de escrever quadras e sonetos. A falta de um “amor é fogo que arde sem se ver” ou um “de tudo, ao meu amor serei atento” fez desta terceira fase drummondiana a menos comentada.

Certamente Drummond é o mais eclético nome de nossa literatura. Foi poeta, cronista e tradutor de sucesso. Narrou, criticou, analisou, homenageou, ironizou, escandalizou pondo uma pedra no meio do caminho de todos os brasileiros. Foi filho, marido, pai, amigo e fã. Influenciou e continua influenciando pessoas sensíveis de várias gerações. E conservou a humildade. Certa vez, ao ser apontado, no início da carreira, como o poeta mineiro que mais produzia, respondeu que escrevia mais porque era o que menos trabalhava. É impossível sintetizar Carlos Drummond de Andrade, pois o mais importante não é o que se aprende sobre ele, mas sim o que se aprende com esse que é um poeta com muito mais de sete faces.

 

Letícia Magalhães é estudante universitária e tem dois livros publicados. Desde cedo mostrou interesse pela escrita, ganhando diversos concursos e tendo seus trabalhos publicados em antologias. Atualmente mantém o blog Crítica Retrô, sobre cinema clássico, e escreve para os sites Leia Literatura, Filmes & Games e Ambrosia.

 

Texto publicado na edição 1 da revista Eels.

Voltar ao sumário

Deixe um comentário

Nome *




* Campos obrigatórios

Newsletter

Cadastre seu e-mail e receba atualizações do site

Powered by FeedBurner

 

Livraria Cultura - Clique aqui e conheça nossos produtos!

 

 

Copyright © 2009 Literatsi. Todos os direitos reservados.
Powered by WordPress